Cotidiano Latino / US em Los Angeles

Será inaugurada no dia 6 de outubro a exposição Cotidiano Latino / US, mostra coletiva com curadoria de Claudi Carreras.

A exposição inclui trabalhos dos fotógrafos Carlos Alvárez Montero, Sol Aramendi, Katrina Marcelle d’Autremont, Calé, Ricardo Cases, Livia Corona, Héctor Mata, Karen Miranda, Dulce Pinzón, Susana Raab, Stefan Ruiz e Gihan Tubbeh.

O catálogo que a acompanha, publicado pela Editorial RM, foi desenhado cuidadosamente, com uma espécie de declive entre os conjuntos de páginas que separam os artistas, fazendo uma alusão à bandeira norte-americana. No Brasil, ele está a venda na Livraria Madalena

Obras chegando…image

Obras sendo revisadas…image

E ta-da! Exposição montada.
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A Livraria Madalena vai ter um estande durante a feira de fotografia SP-FOTO. Além do nosso catálogo, chegaram novidades como os zines da 4478zine, MACK, Editorial RM, Akina, Thames & Hudson e Taschen.

A Livraria Madalena vai ter um estande durante a feira de fotografia SP-FOTO. Além do nosso catálogo, chegaram novidades como os zines da 4478zine, MACK, Editorial RM, Akina, Thames & Hudson e Taschen.

De 16 a 20 de outubro acontece em São Paulo o III Fórum Latino Americano de Fotografia. O tema deste ano é “Fotografia/Sociedade/Classes” e vai trazer a São Paulo um elenco incrível de fotógrafos, curadores, editores e pesquisadores.

O site já está cheio de entrevistas, portfólios, notas e resenhas sobre fotolivros, vale dar uma olhada!

Dá para se inscrever na Leitura de Portfólio até o dia 15 de agosto através do site do Fórum. Também tem diversas opções de workshops.

Prêmios e concursos de fotografia

Fizemos um check list das convocatórias e prêmios com inscrições abertas abertas por aí pra te ajudar a se organizar.

Convocatória EM FOCO - O festival de fotografia Paraty em Foco está selecionando trabalhos nas categorias ensaio e multimídia para integrarem a programação do festival. O melhor trabalho votado pelo juri em cada categoria irá receber o prêmio de R$ 2 mil. O tema é livre, mas deve, de preferência estar vinculado ao tema do festival este ano, EXTREMOS. Até 15 de agosto.

Além dos trabalhos escolhidos pelo festival, alguns curadores convidados estão enviando semanalmente seus trabalhos favoritos.

Bolsa ZUM de Fotografia - O Instituto Moreira Salles vai selecionar dois portfólios ainda não publicados para ajudar a bancar o desenvolvimento deles. O valor é de R$ 65 mil e tudo tem que ser postado no correio até 15 de julho de 2013.

• 4º Concurso Fotolibro Iberoamericano - Promovido por uma das maiores editoras especializadas em fotografia, a Editorial RM, o concurso irá publicar e distribuir mundialmente um projeto de fotolivro inédito. Até o dia 15 de julho as inscrições tem 50% de desconto. O prazo é até o dia 30 de agosto. Envía tu maqueta!

Edital ProAC para publicação de Livros de Artista – Válido apenas para quem está no estado de São Paulo. Até 29 de julho de 2013.

• Rede Nacional Funarte Artes Visuais 10ª Edição –  O programa vai selecionar 22 projetos que promovam atividades ligadas às artes visuais, como oficinas, performances, instalações, seminários, intervenções, exposições, atividades pedagógicas e pesquisa de linguagem. As inscrições encerram no dia 26 de julho.

• Prémio de Fotografia Emergentes DST 2013 – No concurso organizado pelo festival português Encontros da Imagem, o dono do melhor portfólio de Fotografia Contemporânea de 2013 irá embolsar 7500€. Até 31 de julho.

• XVIII Encuentros Abiertos, Festival de la Luz 2014 – O festival argentino está selecionando trabalhos para expor em sua próxima edição. Podem ser ensaios ou projetos multimídia. Até 30 de outubro de 2013.

Livraria Madalena

Pela primeira vez presente no Encontro Pensamento e Reflexão da Fotografia, a Livraria Madalena marca a sua quarta participação itinerante pelos festivais e encontros de fotografia no país. 

É impossível algum fotógrafo, amador ou profissional, entrar no espaço da Livraria Madalena e não encontrar pelo menos um livro que seja seu objeto de desejo. Viviane Vilela, responsável pelo espaço durante o Encontro contou que um dos diferenciais da livraria é que a equipe desenvolve pesquisas, principalmente junto a autores e editoras de fotolivros para encontrar novos e significativos trabalhos. Assim, além de livros que são referencias nacionais e internacionais e trabalhos mais conceituais, também encontramos novos artistas, obras independentes e fotolivros exclusivos. 

© Pétala Lopes

Outra categoria muito bem alimentada na Livraria Madalena são as revistas especializadas da área, vindas de todos os lugares do mundo, como a holandesa Foam, a Elephant, a The Shelf e a brasileiríssima Zum, que além de trazerem um conteúdo indispensável, ainda apresentam um acabamento, papel e direção de arte de extremo bom gosto e criatividade. 

© Pétala Lopes

Para o Encontro, a Livraria Madalena trouxe 290 títulos diferentes. Um dos destaques é o premiado Redheaded Peckerwood, do fotógrafo Christian Patterson (Mack Books). Lançado em 2011 e já em sua terceira edição, o livro venceu o Recontres d’Arles Author Book Award de 2012.

A grande novidade é que no dia 29 de junho acontecerá, no Estúdio Madalena, em São Paulo, a Noite do Fotolivro, que marca também a instalação da Livraria Madalena em um espaço fixo. Compareçam, conheçam o espaço e enriqueçam suas bibliotecas.

Se fosse falar só sobre fotografia, já não seria só

O encerramento do II Encontro Pensamento e Reflexão em Fotografia trouxe o genial Agnaldo Farias, professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, critico e curador. 

Passando por diversos temas, da arquitetura à poesia, Agnaldo hipnotizou a platéia lotada, com um show de conhecimento e simpatia. Com a proposta inicial de falar a respeito de dois artistas e suas obras, ele acabou inserindo, no improviso, o fotografo Mauro Restiffe, que o antecedeu nas apresentações do dia. Assim, deu-se inicio a uma desconstrução e análise do nome do evento, primeiro com a palavra criação, “eu não gosto da palavra criação. E eu acho que essa palavra atrapalha tudo e acaba colocando o trabalho do artista em um lugar errado. É um termo romântico, com ligação ao divino. A criação é o conceito de algo que surge a partir do nada. Essa palavra encobre a verdadeira natureza do trabalho do artista. Não acho que essa palavra deva ser exterminada, mas deveria ser rebaixada”.  O Pensamento e a Reflexão, no entanto, são muito mais bem vistos pelo professor, que conclui o raciocínio anterior dizendo “Pensar e refletir eu gosto. Gosto muito. E esse já é um posicionamento que coloca a criação em um segundo plano mesmo. A reflexão é a ontologia da fotografia”. 

imageFoto: Pétala Lopes

Seguimos em frente, acompanhando a velocidade do pensamento de Agnaldo Farias, que passa a falar do trabalho de Mauro Restiffe e os aspectos que, segundo o curador, o tornam genial, como as fotos feitas na Casa de Vidro, de Philip Johnson, um clássico da arquitetura moderna. “Essa foto é resultado de um olho profundamente culto, sensível e de muito trabalho. Na falta de palavra melhor, podemos dizer que isso é criatividade, mas é, na verdade, a sensibilidade de Mauro, que faz com que ele se destaque como fotografo”, ressalta Agnaldo. 

“A fotografia tem sempre um componente realista, um pé no mundo. Mas o mundo é vasto, ela pode ir pra muitos lugares”, nos conduz Agnaldo, para o próximo artista, Pedro Motta e sua série Reação Natural, associada, pelo professor, à Casa Tomada, de Julio Cortázar, mas nesse caso, num caminho inverso, de fora pra dentro. O conhecimento de Agnaldo Farias é delicioso de ser ouvido, somado a histórias divertidas e análises muito bem humoradas de características da fotografia e do próprio Brasil como um país que é composto de tantas misturas, tantas características extremas.  

imageFoto: Pétala Lopes

“De que importa saber se um foto é manipulada ou não? Qual não é? E o  que importa é a imagem, não? Não é isso que importa? A capacidade de você produzir uma imagem potente, forte, que você não esquece, que te acorda à noite”, diz Agnaldo, antes de nos levar para a próxima artista, Sophia Borges

Enquanto observávamos um retrato chamado “Coruja”, cujo dorso de um corpo ostenta uma densa plumagem, que nos impede de ver qualquer rosto, Agnaldo Farias nos orienta pelo pensamento da fotografa, que construiu seus personagens sem se prender as barreiras que geralmente nos colocamos, “Isso não existe no mundo, mas existe na minha cabeça. E eu sou capaz de pensar nisso. E eu sou do tamanho do que eu penso.“

É um exercício muito interessante escrever sobre uma palestra como essa, pois, mesmo com tantas anotações e gravações, mesmo querendo detalhar e colocar aspas para não perder detalhes fundamentais do seu discurso, ainda assim, não parece possível deixar claro o quanto é grande e importante ouvir uma fala como essa.

imageFoto: Pétala Lopes

Seja você um estudante ou um fotógrafo com 50 anos de experiência, saber nunca é demais. Criar conexões com arte, música, poesia, arquitetura, medicina ou qualquer outro assunto só fará crescer o nosso fazer como artistas e como humanos. E, como disse Agnaldo, encerrando sua palestra e o II Encontro, “Tudo o que nós fazemos cresce, inclusive a fotografia”. 

Sobre as imagens e o espaço

Logo depois de Christian Cravo, o fotógrafo Mauro Restiffe falou sobre sua produção nos últimos 15 anos. Ao invés da ordem cronológica, Mauro organizou a apresentação por momentos decisivos de sua trajetória e mudanças de perspectiva: da metalinguagem às paisagens solitárias e povoadas.

Foto: Pétala Lopes

Mauro começa mostrando três fotografias de imagens. Primeiro, uma fotografia pendurada em uma parede; em seguida, o detalhe de um quadro numa galeria e, em seguida, uma paisagem pintada no Largo do Arouche. “São fotografias ou pinturas? Paisagens reais? Me interessa como a imagem apresenta-se no espaço.” 

Fotos: Mauro Restiffe

No começo de sua produção, o fotógrafo conta que seu foco foram os interiores, com especial atenção à questão dos planos e elementos dentro de uma imagem. Outra vertente importante em seu trabalho é a arquitetura, como os trabalho Vertigem e O Aquário, que em suas instalações sempre levam um cuidado especial com a forma que se comunicam com o espaço. 

Foto: Vertigem, Mauro Restiffe

Foto: O Aquário, Mauro Restiffe

A partir do ano 2000, Mauro passa a explorar os exteriores e cenas reais, com uma forte influência formal da pintura. Seus trabalhos voltam-se à rua, com  pesados contraluzes inspirados em Garry Winogrand. “Os jogos de luz que obstruem nossa visão resultam num contraponto à fotografia como esclarecimento de algo.”

Foto: Mauro Restiffe

Na mesma linha, ele apresenta o trabalho que desenvolveu a convite da revista ZUM na Nova Luz, bairro do centro de São Paulo que, na época, passava por uma “revitalização”. As fotos foram tomadas sempre no final da tarde, mostrando a calma do centro da cidade no final do experiente, sendo sutilmente tomada pelas pessoas. Mauro também citou outro ensaio feito em São Paulo, desta vez no Centro financeiro, encomendado pelo Centro Cultural Banco do Brasil.    

Fotos: Mauro Restiffe

Em seguida, fala sobre o ensaio feito em um conjunto habitacional em Tlatelolco, Cidade do México, conjunto habitacional modernista que foi palco de diversas tragédias. Mostra imagens tiradas no entorno da praça das três culturas, que vem dos três estágios da civilização mexicana, uma da cultura asteca, depois destruído pelos espanhóis, e logo o México contemporâneo. Houve ali um massacre em 1968 como repressão às manifestações contra o regime então vigente. Suas imagens mostram o interior das alamedas e cai para o sítio arqueológico. “O espectador tem que percorrer as imagens no espaço sequencialmente, tendo a mesma percepção que eu tive como fotógrafo durante a montagem”, explica.

Fotos: Mauro Restiffe

Sua série sobre a casa de vidro de Philip Johnson foi comentada na palestra seguinte, por Agnaldo Farias. “As imagens mostram as paredes liberadas de sua função. Fazendo uma casa sem paredes que vedam a visão, extingue-se a divisão entre espaço íntimo e externo. A fratura dessa relação levanta a questão de como se comportar agora. Existem textos que dizem como as pessoas que viviam nessas casas começam a se sentir.”

Fotos: Mauro Restiffe

O ensaio intitulado Empossamento, sobre a posse de Lula em 2003, lida com a questão da arquitetura, o destino de Brasília, ocupada de forma inusitada e quase desconstruída com a presença das pessoas. 

Foto: Mauro Restiffe

A transição do prédio do Detran pro novo Museu de Arte Contemporânea, em São Paulo, é outro de seus trabalhos voltados à arquitetura, e continua exposto no MAC até o dia 8 de setembro de 2013. Mais uma vez, a montagem da exposição procura dialogar com o espaço, procurando posicionar as imagens nas cenas onde foram tiradas. 

Fotos: Mauro Restiffe

A terceira geração

Neto de fotógrafo, filho de fotógrafo e, quem sabe, pai de uma fotógrafa, Christian Cravo iniciou sua fala na penúltima apresentação do Encontro dizendo: “Não sou um orador, sou um fotógrafo.. A fotografia é a minha vida, a vida da minha família e por isso, pra mim, é muito mais fácil falar da minha vida para vocês”. 

Vivendo uma transição no seu trabalho, Christian dividiu com a platéia lotada a sua trajetória de vida, que teve a fotografia desde o início como personagem, às vezes principal, às vezes coadjuvante. Uma trajetória também marcada pela ausência e pela perda, do pai e de amigos, sentimentos que tiveram papéis importante nas decisões de sua carreira. 

Foto: Pétala Lopes

“Quando eu era criança, não tinha brinquedos, amigos, como as outras crianças. Os meus brinquedos, as minhas brincadeiras eram no ateliê do meu pai e do meu avô. Acho que de certa forma, passei grande parte da minha vida tentando conquistar meu lugar ao sol”. 

Com os pais separados durante a sua infância, Christian foi viver com a mãe na Dinamarca, onde morou até os 17 anos. Durante esse período, percebeu seu interesse pela fotografia crescendo e se comunicava com o pai por cartas, trocando imagens e palavras. Chegando ao fim do colegial, incentivado por uma professora, voltou para o Brasil, sedento por conhecer melhor sua família, seu país e o seu olhar. Hoje, ele reconhece que esse período na Dinamarca foi muito importante para a sua fotografia. 

Pensando nessa carreira que então se desenvolveu, Christian reforça, “a fotografia para mim não é uma profissão, é a minha vida. A fotografia é o melhor negócio para mim, pois nunca irá falir. É algo que eu preciso, que é inerente a minha compreensão da vida e da vida que me cerca”.

Foto: Pétala Lopes

Suas influencias artísticas vieram, obviamente, do pai e do avô, mas ele ressalta também outras importantes fontes de inspiração: Mario Cravo Neto, Sebastião Salgado e o artista renascentista Rembrandt, principalmente o uso da técnica do claro-escuro. 

Podemos dizer que a primeira fase do seu trabalho fotográfico esteve focada na estética do humano e na fé. As pessoas, os retratos e a convivência com outras comunidades são os temas de suas fotografias ao longo de muitos anos. De certa forma, ele assume, em sua cabeça, havia um tipo de competição com seu pai, um processo até normal para alguém que vem de uma família como a dele. 

Foto: Pétala Lopes

Então, a vida trouxe alguns acontecimentos concomitantes, que o fizeram repensar a sua busca. A morte do pai, evidentemente dolorida ainda hoje, e o terremoto no Haiti, terra onde desenvolveu a maior parte de seus trabalhos, colocaram Christian em contato com a fragilidade do ser humano, “a futilidade da vida”, como ele mesmo disse. Essa série de perdas o fez não querer mais fotografar pessoas. “O homem carrega sobre si uma cruz tão pesada que fica muito difícil para um fotógrafo lidar com isso. Para mim sempre foi muito difícil lidar com o ser humano”. 

Agora, Christian segue uma nova pesquisa, fotografando animais, texturas e paisagens e redescobrindo seu olhar, sua fotografia e esse novo momento de sua vida, viajando para a África e sendo, segundo sua filha, um aventureiro. 

Workshop Transformando-se em proposta – o projeto na prática fotográfica contemporânea, de José Antonio Navarrete / segundo e terceiro dias

No segundo dia de workshop, Navarrete retoma pontos cruciais no na elaboração de uma proposta. “Um projeto nada mais é do que o desenvolvimento da compreensão de um processo. Quanto mais conhecimento se tem de um problema, mais conseguimos entender as pragmáticas que derivam dele.”

Quando questionado sobre a autoria em trabalhos recentes de apropriação na fotografia, Navarrete responde que esta prática tem tido outro tratamento. Há lugares que definem até que ponto deve-se citar ou não o autor. Cita o exemplo de Cindy Sherman, que em um de seus trabalhos se apropria de um discurso, no caso, o do cinema. Sherman não se apropria de uma obra completa, mas sim dos modos com as quais os filmes se configuram. 

"As apropriações têm diferentes graus e motivações. Citar a fonte do material apropriado também se relaciona à importância que tem o autor principal dentro da nova proposta. A fotografia constitui a plataforma teórica de toda proposta artística." 

imageFoto: Pétala Lopes

Uma aluna pergunta se é comum um projeto se alterar com o tempo. Navarrete diz que sim, e fala sobre um trabalho do venezuelano Carlos Cruz Diez, que nos anos 60 fez câmeras cromáticas com a intenção de mostrar aos espectadores a experiência da cor pura. No entanto, percebeu-se que depois de um tempo na câmara, os olhos das pessoas se saturavam da cor até distorcerem seus sentidos. Recentemente, o trabalho foi exibido com um outro discurso. Hoje, a justificativa do trabalho é a impossibilidade da pureza. 

imageFoto: Pétala Lopes

O curador retoma o assunto da apropriação, afirmando que muitos trabalhos que poderiam ser considerados o arquivo de um processo criativo começa a circular no mundo da arte como obra legitimada. “Não digo que não se pode fazer, mas essas exposições não levam em conta o processo criativo e de edição do autor”, diz Navarrete. 

Cita os usos da obra de Manuel Álvarez Bravo, que já havia, quando vivo, tomado as deciões a respeito de seu trabalho de forma indivudual. A difusão indiscriminada de suas fotografias faz com que elas, de alguma forma, percam sua energia. Desta forma, se ocultam ao receptor as práticas intelectuais e criativas do autor.

No terceiro e último dia do curso, Navarrete se voltou aos fatores decisivos na hora de conseguir recursos provenientes de editais e instituições. É importante que o uso da verba esteja detalhada e seja coerente, mas o principal é uma proposta bem esclarecida. “O mais comum é que o projeto seja aprovado e as instituições negociem posteriormente a adequação à verba.” Falou também sobre o quão comum é, nos Estados Unidos, artistas pedirem às empresas que elaborem seus projetos, ganhando uma porcentagem caso ele seja aprovado.

imageFoto: Pétala Lopes

"Outro fator importante é conhecer a quem o projeto se dirige, tanto as instituições para as quais a proposta é encaminhada quanto o público que deseja atingir."

Na redação de projetos é preciso tomar cuidado com a poetização (diferente de poética), que torna o trabalho ininteligível. “Alguns projetos estão cheios de frases bonitas que não dizem nada”. Outro ponto é o uso de “pastilhas” teóricas, que podem abstrair o trabalho da poética.

É importante sempre associar a teoria à proposta concreta. “Sou apaixonado por teoria, mas os projetos que mais me interessam são aqueles que citam com clareza o que querem”.

"A proposta precisa expor claramente as relações entre o trabalho em questão e os desejos e intenções do artista", conclui. Os pontos discutidos durante as aulas foram retomados quando diversos alunos apresentaram seus projetos, no final de cada dia do worshop. 

Muito adentro da fotografia

A ultima palestra dessa sexta-feira ficou a cargo do pesquisador, critico e curador independente José Antonio Navarrete. Cubano, residente em Miami, ele tem desenvolvido uma intensa atividade na área da fotografia, especialmente na America Latina. 

Para o encontro em São Paulo, Navarrete escolheu um tema que, para ele, “é pouco comum entre os fotógrafos e também pouco visto na America Latina, mas que é um tema existente, está aí e precisamos vê-lo e refletir a respeito”. Muito adentro da fotografia, Navarrete explorou a relação entre a fotografia e a abstração. “Sempre me pergunto se é possível a abstração total na fotografia, já que historicamente ela é definida a partir de suas referencias de luz e imagem”. 

Foto: Pétala Lopes

Antes de abordar a abstração na fotografia contemporânea, Navarrete fez um breve passeio por obras modernas que já apresentavam características do abstrato e abriram caminhos para as fotografias de hoje. Entre os artistas modernos citados, vimos obras de Paul Strand, Alfred Stiglitz, Manuel Álvarez Bravo, Geraldo de Barros e Leo Matiz. Tais obras representavam imagens abstratas a partir de truques visuais que nos fazem levar um tempo para entender o que compõem a imagem, recortes de papel ou até mesmo interferências físicas nos fotogramas. 

Foto: Pétala Lopes

“Durante os últimos 20 anos a fotografia abstrata tem crescido consideravelmente e voltou a ter lugar entre os protagonistas contemporâneos”. Passamos então para os artistas contemporâneos, que trabalham com a abstração de maneira muito interessante, como Maria Lin, James Welling, Hiroshi Sugimoto, Walden Besky, Herbert Bayer, Liz Deschenes, Thomas Ruff, Shirana Shahbazi. Navarrete destacou o trabalho principal de cada um desses artistas pois “o que me interessa nesse momento são os trabalhos fundamentais para essa problemática dentro da abstraçao e da fotografia contemporânea. São trabalhos que se desenvolvem em um plano informal e criativo, diferentes das praticas modernas, mas ainda assim, com uma referencia importante para a fotografia atual”. 

Navarrete encerrou a sua fala explicando que o posicionamento teórico sobre a fotografia é, frequentemente, sobre determinadas poéticas, pois é difícil obter uma resposta teórica sobre um assunto tão amplo quanto o campo das imagens. 

Imagens que geram imagens: entre a experiência e a poética

Tendo como guia o tema deste ano, “a criação e seus caminhos”, o pesquisador Mariano Klautau apresentou um texto que faz parte de sua pesquisa acadêmica intitulado “Imagens que geram imagens: entre a experiência e a poética”. 

"Hoje a arte que vivemos é completamente aberta e em processo contínuo", começa. Logo, passou para uma das abordagens principais da palestra, que é o nosso relacionamento com a poética de um artista no campo da perspectiva.

"A fotografia parece estar cada vez mais onipresente, não só na nossa trama social quanto na nossa experiência artística. Para muitos teóricos prevalece a ideia que não existe a fotografia no seu sentido estrito."

Em seguida, questiona a ideia de pós-fotografia, tendo em conta que observar o processo do artista não obedece à cronologia. “Vivemos o desaparecimento de materialidades físicas no campo fotográfico. Podemos dividir esse mundo em três estágios: a era pré-fotográfica, a era fotográfica e a pós-fotográfica, que se sucedem afirmando uma linha evolutiva da história. A evolução dos equipamentos determina um outro jeito na produção e circulação das imagens. É igualmente importante percebermos que seja qual for o campo do conhecimento, quando frequentado pelo artista, as imagens não se sustentarão numa visão meramente evolucionista.” 

Foto: Pétala Lopes

"O artista contemporâneo tem recolocado de forma ficcional a realidade, seja ela a partir de uma vivência social ou de dentro de casa. A fotografia parece ser um modo particular de aproximação de certas impressões, sensações de um mundo vivido." 

Ele mostra em seguida o trabalho de Ilana Lichenstein, Uma e outra Erupção, que constituem pequenos fios de historias particulares, que nos revelam ao mesmo tempo um universo onírico e algo muito palpável. “Ilana quer abrir para o espectador suas paisagens inteiores.”

O momento da captura é um momento pleno de imagens mentais e empatias potenciais. A imagem vista é um instante vivido pelo espectador, igualmente pleno, quando ocorre o reconhecimento de si nas imagens do outro. É aí que se dá o momento de empania, no retorno ao referente do outro que é agora nosso.

A experiência sensorial do espectador semelhante à experiência vivida pelo artista acaba por abrir uma paisagem dentro do espectador. ”A intenção é me deter no momento do aspecto criador no qual as funções práticas se dão de forma menos ordenada racionalmente, sem falar de sentimentos, percepção e experiencia. Tudo é raciocínio. 

"Na fotografia muitos trabalhos jogam com o espectador as possibilidades vividas ou imaginadas". 

Mariano cita outro exemplo, o trabalho Screens, de Bruno Zorzal. “Ele constrói uma série continua, minimalista, e com seu enquadramento uniforme, apreende as pessoas em seus carros, fazendo quase com que se mergulhe na individualidade de cada personagem imerso no tráfego.”

Em seguida, Mariano comenta o trabalho Welcome Home, de Gui Mohallem. “Pessoas e objetos parecem flutuar dentro dos ambientes. No entanto, tudo parece palpavel, um exercício de aproximação lenta, o contato físico, e corporal com o meio.” 

Spinario, de Lucas Gouvêa é o trabalho seguinte.

"Ele tem como referência as reproduções da escultura Espinário, retomando-as em uma experiência performática usando uma câmera pinhole digital. "A ação quase nos fura os olhos. Podemos sim apagar nossas imagens, esquecer nossas lembranças para que seja possível assim viver."

Qual história você quer contar? / workshop Reportajear Humanos: segundo e terceiro dias

O workshop mais animado do II Encontro Pensamento e Reflexão foi, provavelmente, o de Ricardo Cases. Entre aplausos, risadas, gritos e até uma rápida corrida pelo MIS, os dois últimos dias de aula foram ricos de imagens e ideias. 

Ricardo Cases concentrou-se em ver os trabalhos dos alunos, que trouxeram fotos impressas, digitais, vídeos e muitas histórias. A troca de opiniões tanto entre os alunos quanto com Cases foi muito rica. 

Foto: Pétala Lopes 

A apresentação de cada trabalho deixou muito claro as várias possibilidades e os vários caminhos que a fotografia percorre. Desde uma pesquisa acadêmica sobre a repressão policial, até a história pessoal e subjetiva sobre o nascimento de um filho. Desde um material que surge a partir de aulas de educação ambiental até a representação metafórica de um pesadelo, ou a busca pela história de um personagem simbólico que já morreu. Seja qual fosse o tema, Ricardo observava paciente e atenciosamente, insistindo sempre na fundamental pergunta: qual é a história que quer contar? Ricardo declarou que “para ser fotógrafo, para mim, não existe a necessidade de uma formação e sim a intenção de contar alguma coisa, uma história, um conto, através de imagens. “

Foto: Pétala Lopes

Então, após conhecer melhor a historia de cada projeto, Cases discorria animado sobre as impressões que as fotos lhe causavam, pulando de uma ideia para outra, fazendo conexões incríveis com fotógrafos importantes da cena contemporânea como Francesca Woodman, Willian Klein, Duane Michals, Antoine D’agata, Trent Park, Miguel Angel Tornero, Maira Soares, John Gossage, Rinko Kawauchi e Claudia Andujar, entre muitos outros. 

Todo o processo de edição foi feito com muita delicadeza e respeito por parte de Ricardo, que fez questão de deixar claro que ali ele apenas opinava, sem determinar o que é certo ou errado. A energia, a rapidez e o bom humor de Cases contagiou a turma nesses dois dias e, ainda que cedo, ainda que sábado, todos estavam presentes e dispostos, com seus copinhos de café nas mãos, prontos para absorver qualquer tipo de informação que viesse dele. 

Foto: Pétala Lopes

Foram, sem dúvida, três dias de muita informação, inspiração e injeções de coragem para que sigamos com nossos projetos, nossas idéias, de maneira mais arrojada, intempestuosa, criativa e apaixonada. Apaixonados pelas histórias que a imagem pode contar, assim como Ricardo Cases.